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Divórcio sem consentimento

A separação entre mães e filhos

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Maria Ana Ferro
fev 11, 2025
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Não posso falar do que sentem os homens, da relação que têm com os seus filhos e os filhos com eles. Não posso falar de como vivem a divisão de tempo, a separação. Não posso falar da ligação que têm, nem imaginar, nem supor, nem comparar. Haverá de tudo como há também com mães que vivem os filhos e a maternidade de maneiras diferentes.

De tudo o que envolve um divórcio, separar-me dos meus filhos foi sem qualquer sombra de dúvida aquilo que mais me custou. Para mim, era inconcebível. Anti natural, assustador e senti-o como se estivessem a obrigar-me a arrancar parte de mim e a sobreviver ainda assim. Andar sem pernas, ver sem olhos, sentir sem mãos.

Entreguei três partes de mim. Primeiro devagar, apenas uns dias por semana, porque me recusei a entrega-los mais do que o meu coração aguentava, como se tivesse esse direito, como se fosse eu mais mãe do que o pai deles era pai, como se interessasse quem tomou a decisão de terminar o casamento. Era fisicamente incapaz de os desprender de mim, de os deixar ir sem um peso enorme e um vazio gigante e um aperto absurdo no coração. Contava para aquela carga toda o facto de estar em casa há 10 anos com eles, de nos termos habituado uns aos outros com uma naturalidade imensa, por fazermos, os quatro parte constante da nossa equação. Era segura, esperada, permanente e sem surpresas.

Aquele arrancar do colo acabou comigo. Não concebia sequer aceitar a possibilidade de deixar de estar presente nas pequenas coisas da vida deles, quanto mais nas grandes.

Tinha deixado de trabalhar por eles, para os ver crescer, para os ver cair e os levantar, para os ensinar a levantar-se sozinhos, para assistir três vezes às primeiras vezes de tudo: chorar, sorrir, andar, falar, escrever. Para lhes dar banho todas as noites e jantar e ler a história e os deitar e os levar à escola, todos os dias, e fazer pequenos almoços tardios ao fim de semana, e ouvir as suas preocupações e alegrias e histórias e acordar com eles no dia de anos e deita-los nos dias de anos. Tinha escolhido estar presente. E estive.

E de um momento para o outro fomos obrigados a separar-nos. Os filhos não querem separar-se das mães, eu sei isso. E sei que todos se habituam mas há feridas que se abrem para sempre e o mundo tenta relativizar porque são os novos tempos, porque o normal hoje são pais divorciados e o raro é haver quem tenha os pais juntos e provavelmente isso ajuda no contexto social, a não se sentirem tão sozinhos e a terem com quem falar mas não no momento em que precisam da mãe e mãe não está lá.

São obrigados, porque não têm alternativa, a habituar-se à ausência. Aos 5 anos, a minha filha mais nova era demasiado pequena para ficar tanto tempo sem mãe e eu tanto tempo sem ela, sem eles, porque se pensar nisso - evito fazê-lo -, também o de 7 e também a de 10 precisavam de mim.

A lei diz apenas que o regime de residência deve ser aplicado em superior interesse dos menores e para mim isto é dúbio. Por um lado era do interesse dos menores que a sua vida não tivesse sido destabilizada e virada de pernas para o ar, que não tivessem duas casas, dois Natais, que não tivessem de andar com as mochilas e as lancheiras e os casacos de inverno de uma casa para a outra. Depois, é do interesse dos menores continuarem a estar com mãe e pai, é do interesse dos menores não estar separado de nenhum deles. E é do interesse dos menores não estarem sem a mãe. Em que interesse lhes demos a possibilidade de decidir? Nenhum. Presumimos como se fosse uma conta fácil de somar. Presumimos o melhor. Esperamos o melhor. Contamos com o melhor.

Queremos muito que os pais assumam os seus deveres enquanto pais e que criem com os filhos ligação, responsabilidade e presença desde o nascimento mas a verdade é que ainda são as mulheres - na maioria das vezes - a estar mais presentes, a dedicar mais do seu tempo e a distribuição não é de todo igual.

Esse vínculo é criado ao longo do tempo e desde o primeiro dia, não no momento da separação e há por isso, para muitas mães, um grande sentimento de injustiça. Normal e válido, a meu ver.

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